Podemos estar a respirar substâncias cancerígenas dentro dos carros, diz estudo

Cientistas testaram a espuma dos bancos de 101 automóveis e encontraram substâncias nocivas em todos eles. O ar que se respira nos carros pode ser perigoso, sobretudo nos dias quentes, sugere estudo.

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Os cientistas testaram 101 carros produzidos nos Estados Unidos e verificaram que todos apresentavam retardantes de chama na espuma dos bancos Garvin St Villier/Pexels
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O ar que respiramos no interior dos carros está contaminado com poluentes conhecidos como “retardadores de chamas”, incluindo alguns potencialmente carcinogénicos, sugere um estudo científico publicado esta terça-feira na revista Environmental Science & Technology. Isto deve-se ao facto de a indústria automobilística incorporar tais substâncias químicas à espuma dos bancos, apesar de esta opção não oferecer um benefício comprovado em caso de incêndio, afirmam os cientistas.

“A mensagem mais importante que retiramos deste estudo é que as pessoas em todo o mundo estão a ser expostas a compostos químicos a maioria dos quais cancerígenos, neurotóxicos e desreguladores endócrinos – no interior dos próprios carros. Estas substâncias são utilizadas com base em normas de inflamabilidade com mais de cinco décadas, pelo que é necessário actualizar essas regras para que os veículos sejam simultaneamente seguros contra incêndios e seguros em termos de produtos químicos”, explica ao PÚBLICO a co-autora Lydia Jahl, investigadora principal do Green Science Policy Institute, nos Estados Unidos (EUA).

Os cientistas pediram aos proprietários de 101 automóveis produzidos nos EUA a partir de 2015 – ou seja, veículos considerados recentes – para colocar uma faixa de silicone à volta do retrovisor durante um período de sete dias. Este procedimento não prejudicava a visibilidade durante a condução. Desse total de participantes, 51 também recolheram uma pequena amostra de espuma da parte inferior do assento do automóvel.

“Queríamos procurar retardadores de chama presentes não só na espuma dos bancos dos veículos, mas também no próprio ar. Para isso, pedimos aos nossos participantes (se estivessem dispostos e fossem capazes!) que se colocassem debaixo do banco e cortassem um pedacinho de espuma para que os retardadores de chama pudessem ser analisados directamente [no laboratório]. Os retardadores de chama estão presentes no ar porque são libertados ou evaporados dos materiais para o ar. A partir daí, também podem cair na forma de poeiras, ou partículas”, afirma Lydia Jahl.

Os cientistas encontraram retardadores de chamas – um composto químico que, como o nome sugere, possui propriedades anti-inflamáveis – no interior de todos os veículos analisados. Desse total, 99% das viaturas continham um tipo de retardador de chama considerado potencialmente cancerígeno, o TCIPP. Também foram identificadas outras substâncias potencialmente nocivas e associadas a danos neurológicos e reprodutivos.

“Considerando que um condutor passa, em média, uma hora no carro todos os dias, isto constitui um problema de saúde pública significativo. É particularmente preocupante para os condutores com deslocações mais longas, bem como para os passageiros infantis, que respiram mais ar do que os adultos”, refere a primeira autora do estudo, Rebecca Hoehn, cientista da Universidade de Duke, nos Estados Unidos, citada numa nota de imprensa.

Cerca de metade dos automóveis foram testados tanto no Verão como no Inverno. O problema agrava-se com o calor, referem os cientistas, uma vez que a libertação de gases dos componentes interiores, como a espuma dos bancos, aumenta com as temperaturas mais elevadas.

“O nosso trabalho é único não só porque analisou os retardadores de chama em veículos produzidos recentemente, mas também porque analisou a dependência da temperatura (encontrando mais retardadores de chama a temperaturas mais elevadas, tal como o esperado, devido às propriedades químicas dos retardadores de chama), e confirmou que os retardadores de chama utilizados na espuma dos assentos dos veículos saem dos assentos e passam para o ar interior”, resume Lydia Jahl.

Lydia Jahl sugere não só que se abram as janelas “durante alguns minutos” ao entrar no carro, especialmente nos dias quentes, mas também que se limite o modo de circulação interna de ar no interior dos carros (um dispositivo que, na prática, faz com que os poluentes girem e fiquem em suspensão no habitáculo). Estacionar à sombra, sempre que possível, também é uma boa ideia. A cientista também encoraja a limpeza das mãos após viagens de carro, sobretudo antes das refeições.

“O que é realmente necessário, contudo, é reduzir a quantidade de retardadores de chama que são adicionados aos carros. As deslocações para o trabalho não devem implicar um risco de cancro e as crianças não devem respirar substâncias químicas que podem prejudicar o seu cérebro quando estão a caminho da escola”, observa a investigadora, citada num comunicado.

E na União Europeia?

Nos Estados Unidos (EUA), os retardadores de chama são adicionados à espuma dos bancos para cumprir uma norma federal de segurança automóvel criada nos anos 1970. Segundo o artigo científico, o diploma permanece inalterado meio século depois. Tais substâncias também são “muitas vezes” encontradas na indústria automobilística europeia, refere a cientista Lydia Jahl, quando questionada sobre se os portugueses também deveriam estar atentos à questão dos retardadores de chama.

“A nossa publicação também é relevante para os leitores europeus porque, muitas vezes, existem materiais e peças de veículos partilhados entre os EUA e a UE, e os fabricantes de ambos os locais estão a seguir testes de inflamabilidade em chama aberta semelhantes que levam, em primeiro lugar, à utilização de retardadores de chama. Muitas publicações mais antigas confirmaram a utilização de retardadores de chama em veículos na União Europeia”, afirma a investigadora, numa resposta por e-mail.